Bombados pela vaidade
COMPORTAMENTO

Avesso da anorexia, a vigorexia ataca os homens: apesar dos corpos sarados, eles se acham miúdos e fracos, malham demais e usam anabolizantes

SUZANE FRUTUOSO


Daniel Aratangy/ÉPOCA

COMPARAÇÃO
Camargo se acha fraco em relação a outros colegas de academia
O esporte sempre fez parte da vida do professor de Educação Física Rodrigo Dimes Costa, paulistano de 26 anos. Incentivado pela família, ele jogou futebol e tênis de mesa desde a infância. Mas, aos 16 anos, começou a implicar com o espelho: seu corpo não estava como desejava. Assim como qualquer adolescente, Costa queria ficar forte, impressionar amigos e conquistar garotas. Entrou numa academia e conseguiu definir os músculos. No entanto, o que deveria melhorar sua saúde e auto-estima se transformou em problema. 'Fiquei obcecado por meu corpo', conta. 'Malhava todo dia. Quando faltava, ficava ansioso e agressivo. Parecia que estava perdendo força.'

Essa obsessão é cada vez mais freqüente entre adolescentes e rapazes com 20 e poucos anos. É a chamada vigorexia ou dismorfia muscular. Ao contrário da anorexia, que faz com que meninas esqueléticas se sintam e se vejam gordas, os garotos vigoréxicos têm músculos enormes, porém continuam se achando fracos. 'O jovem com esse distúrbio limita as atividades sociais e os estudos para dedicar horas ao levantamento de peso', alerta a psiquiatra Paula Melin, presidente do Núcleo de Transtornos Alimentares e Obesidade (Nuttra), do Rio de Janeiro. 'É uma resposta equivalente à feminina para se adequar ao padrão corporal que a mídia estabeleceu nos últimos anos', explica.

Os principais sintomas de um vigoréxico podem ser confundidos com excesso de vaidade. 'O mais comum é tanto a pessoa como a própria família não se dar conta de que determinadas atitudes indicam uma doença', alerta a psiquiatra. Gastar muito tempo com exercícios, querer resultados rápidos, olhar-se no espelho freqüentemente, comparar-se a outros colegas e ficar deprimido por isso são pistas de que há necessidade de orientação psicológica, às vezes somada à administração de antidepressivos. 'A vigorexia pode também ser uma modalidade do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) na qual a pessoa malha compulsivamente', assinala Paula.

Terapia e uso de medicamentos como Rivotril (para ansiedade) e Zetron (antidepressivo) foram a saída encontrada pelo carioca Leonardo, de 20 anos, estudante de Direito. 'Malhar virou uma obrigação. Se por acaso eu faltasse, ficava com insônia, preocupado porque tinha de estar na academia no dia seguinte de qualquer jeito. Achava que seria ridicularizado por meu corpo estar enfraquecendo', conta. Exagerou de tal forma nos exercícios que desenvolveu tendinite nos ombros.

Não agüentou a dor, mas, em vez de parar por um tempo, resolveu dar mais ênfase às séries para membros inferiores. Arrumou tendinite também nos joelhos. Finalmente, uma fisioterapeuta o obrigou a parar a musculação por três meses, e Leonardo resolveu procurar ajuda para o sofrimento psicológico.

Hoje, consegue se dedicar mais aos estudos e organizar a agenda para os ensaios como vocalista de uma banda. Malha com moderação, três vezes por semana.

O jovem com esse distúrbio limita as
atividades sociais e os estudos

 

Apesar de ter passado de 60 quilos para 85 (com 1,84 metro de altura), Rodrigo Dimes Costa ficava angustiado por não ver seus músculos saltar. Começou a usar suplementos indicados pelo professor e pelos colegas de academia. Até que experimentou os anabolizantes, aos 20 anos. Tomou comprimidos para inchar a musculatura durante um mês. Por sorte, o corpo respondeu mal. 'Vomitei durante quatro dias e fui parar no hospital. Emagreci 10 quilos em uma semana', lembra. 'Sabia dos riscos, mas era a loucura de querer ficar forte a todo custo, um vício.' O susto trouxe consciência. Hoje, como instrutor de musculação e pilates, conta aos alunos sua história quando algum deles se mostra desesperado na busca por um padrão estético, colocando a vaidade antes da saúde. 'Aprendi com meu erro.'

Pelos mesmos motivos - ganhar músculos por se achar muito magro -, o estudante de Direito paulistano Fábio de Camargo, de 24 anos, freqüenta a academia desde os 15. De manhã, musculação; à tarde, corrida; à noite, free-style, um mix de lutas como jiu-jítsu e boxe. A alimentação é baseada em proteína e carboidrato. Apesar dos 94 quilos num corpo mais do que definido, de 1,83 metro de altura, ele ainda se acha peso leve diante de outros rapazes. 'Se vejo um cara mais forte, me sinto menor. E todos os meus amigos têm esse pensamento', afirma. Camargo já treinou lesionado e com dor, graças a uma tendinite no antebraço.



COMPORTAMENTO

Bombados pela vaidade - continuação

SUZANE FRUTUOSO

Aos 18 anos, no desespero de 'crescer' cada vez mais a musculatura, o universitário começou a usar anabolizantes - sempre cerca de dois meses antes do verão. 'A intenção era ficar sarado na praia. Em duas semanas já inchava. Eu me matriculava numa academia onde eu estivesse passando férias, para poder treinar todo dia', conta. Parou com os esteróides quando percebeu que tinha músculos, mas nenhuma resistência física. 'Correr por alguns minutos era um sacrifício. Não tinha fôlego e fiquei também com medo de me viciar.'

Daniel Aratangy/ÉPOCA

SUSTO
Internado devido aos excessos com exercícios e anabolizantes, Costa mudou o estilo de vida
Camargo já viu amigos passar mal e sofrer de ginecomastia, o crescimento das glândulas mamárias. Ainda assim resiste em admitir os malefícios dos esteróides. 'Isso é lenda. Grande parte de meus amigos usa 'bomba' e não tem problemas de saúde. Tem de saber tomar', insiste. Era a tese defendida pelo atual governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, que em 1997 teve de trocar várias válvulas cardíacas por válvulas de coração de porco, depois de sofrer problemas relacionados ao uso de esteróides. Na época, aos 49 anos, o ator disse que o problema cardíaco era congênito, mas a afirmação foi desmentida até por amigos e parentes.

Os exageros e a crença de que suplementos e anabolizantes não são um perigo para a saúde têm criado um efeito preocupante nos consultórios com a onda dos vigoréxicos. O chefe do setor de ortopedia do hospital carioca Barra D'Or, Luiz Simbalista, diz que no verão passado surgiram casos de rapazes com infecção profunda nos músculos. Os exames mostraram que a origem do problema era uma injeção intramuscular, uma das formas de aplicação do esteróide. A substância estava contaminada, o que causou dor e inchaço nos músculos das coxas, dos ombros e dos glúteos, além de necrose. 'O músculo apodrecido é retirado apenas com cirurgia', esclarece o ortopedista.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, Durval Ribas Filho, o anabolizante é um medicamento indicado apenas em casos muito específicos, como na recuperação de pós-operatório, atrofia de massa muscular, anorexia e bulimia - e mesmo assim quando não há resposta a outros tratamentos. 'Infelizmente, esses jovens utilizam o esteróide de maneira equivocada', lamenta. Consumidos de forma errada, mesmo os suplementos não-anabolizantes trazem riscos, como o aumento do ácido úrico no organismo e a formação de cálculo renal, entre outros.

Simbalista destaca ainda o aumento nos últimos anos do número de pacientes com lesões por excesso de exercícios. Essa dose descontrolada de malhação causa microfissuras nos músculos, que, inchados, também ficam com a capacidade de esticar limitada e a circulação sanguínea comprometida. Artérias e veias são obstruídas, o que pode provocar o aumento da pressão. 'Esses jovens não estão medindo as conseqüências, que vão aparecer mais tarde, em um corpo considerado perfeito', previne o ortopedista.

COMPORTAMENTO

A morte da beleza

SUZANE FRUTUOSO

Livro mostra como os excessos fazem a pessoa perder a própria identidade

Nos últimos anos, a psiquiatra Jocelyne Levy Rosenberg observou o aumento da preocupação excessiva com um padrão de beleza, tanto na mídia quanto em seu consultório. Uma das principais manifestações desse fenômeno é a vigorexia. Motivada pelos casos que atendeu, ela passou a pesquisar sobre outros distúrbios relacionados ao corpo. Daí nasceu o livro Lindos de Morrer (Ed. Celebris), lançado no dia 15. A psiquiatra concedeu a seguinte entrevista a ÉPOCA.

ÉPOCA - Cuidar da aparência é saudável. Mas quando a preocupação estética se torna um perigo?
Jocelyne Levy Rosenberg - O excesso nunca é saudável. Se você faz sua academia dentro de um esquema viável, ótimo. Mas não é normal deixar de lado atividades sociais e profissionais simplesmente para se dedicar a melhorar a aparência física ou gastar o que não tem com isso.

ÉPOCA - Quais as conseqüências desses excessos?
Jocelyne - Um dos exemplos que cito no livro é o cantor Michael Jackson. Ele é a prova do que o exagero, aliado a uma doença, pode fazer. O título Lindos de Morrer não se refere só à morte física, que realmente pode ser a conseqüência. Mas também à morte da identidade da pessoa.

ÉPOCA - Qual o perfil das vítimas desses problemas?
Jocelyne - São pessoas perfeccionistas, que querem muito agradar aos outros, sistemáticas e com baixa auto-estima. Elas buscam a aprovação alheia.

ÉPOCA - O que a família e os amigos podem fazer para ajudar?
Jocelyne - É delicado conversar sobre o assunto. A princípio, levar a um psiquiatra talvez não seja a melhor solução porque haverá resistência. Às vezes um tio, amigo ou professor em quem o paciente confie seja o primeiro canal para ajudá-lo a tratar o problema. Quanto mais cedo se identifica a questão, mais fácil se torna a cura. Não julgue, respeite, porque essas pessoas não estão fazendo isso de propósito.

Título
Lindos de Morrer
Autora
Jocelyne Levy Rosenberg
Preço e páginas
R$ 19,90/112
Editora
Celebris

COMO AGE O VIGORÉXICO
É importante procurar auxílio psicológico e nutricional ao perceber estes sintomas
Tem disciplina para malhar; quer resultados rápidos

Gasta praticamente todo o tempo livre na academia
Pesa-se e olha-se no espelho com freqüência
Impõe-se metas cada vez mais difíceis
Compara-se com os outros na academia
Fica irritado e ansioso no dia em que está impossibilitado de malhar
Fica deprimido caso perceba (ou imagine) que perdeu peso ou músculos
Faz uma dieta basicamente de carboidratos e proteínas
Faz uso de suplementos e anabolizantes

Artigo enviado por nosso Leitor Robert M. Dougan- New Jersey -EUA



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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