| Bombados pela vaidade |
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Avesso da anorexia, a vigorexia ataca os homens: apesar dos corpos sarados, eles se acham miúdos e fracos, malham demais e usam anabolizantes SUZANE FRUTUOSO
Essa obsessão é cada vez mais freqüente entre adolescentes e rapazes com 20 e poucos anos. É a chamada vigorexia ou dismorfia muscular. Ao contrário da anorexia, que faz com que meninas esqueléticas se sintam e se vejam gordas, os garotos vigoréxicos têm músculos enormes, porém continuam se achando fracos. 'O jovem com esse distúrbio limita as atividades sociais e os estudos para dedicar horas ao levantamento de peso', alerta a psiquiatra Paula Melin, presidente do Núcleo de Transtornos Alimentares e Obesidade (Nuttra), do Rio de Janeiro. 'É uma resposta equivalente à feminina para se adequar ao padrão corporal que a mídia estabeleceu nos últimos anos', explica. Os principais sintomas de um vigoréxico podem ser confundidos com excesso de vaidade. 'O mais comum é tanto a pessoa como a própria família não se dar conta de que determinadas atitudes indicam uma doença', alerta a psiquiatra. Gastar muito tempo com exercícios, querer resultados rápidos, olhar-se no espelho freqüentemente, comparar-se a outros colegas e ficar deprimido por isso são pistas de que há necessidade de orientação psicológica, às vezes somada à administração de antidepressivos. 'A vigorexia pode também ser uma modalidade do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) na qual a pessoa malha compulsivamente', assinala Paula.
Apesar de ter passado de 60 quilos para 85 (com 1,84 metro de altura), Rodrigo Dimes Costa ficava angustiado por não ver seus músculos saltar. Começou a usar suplementos indicados pelo professor e pelos colegas de academia. Até que experimentou os anabolizantes, aos 20 anos. Tomou comprimidos para inchar a musculatura durante um mês. Por sorte, o corpo respondeu mal. 'Vomitei durante quatro dias e fui parar no hospital. Emagreci 10 quilos em uma semana', lembra. 'Sabia dos riscos, mas era a loucura de querer ficar forte a todo custo, um vício.' O susto trouxe consciência. Hoje, como instrutor de musculação e pilates, conta aos alunos sua história quando algum deles se mostra desesperado na busca por um padrão estético, colocando a vaidade antes da saúde. 'Aprendi com meu erro.' Pelos mesmos motivos - ganhar músculos por se achar muito magro -, o estudante de Direito paulistano Fábio de Camargo, de 24 anos, freqüenta a academia desde os 15. De manhã, musculação; à tarde, corrida; à noite, free-style, um mix de lutas como jiu-jítsu e boxe. A alimentação é baseada em proteína e carboidrato. Apesar dos 94 quilos num corpo mais do que definido, de 1,83 metro de altura, ele ainda se acha peso leve diante de outros rapazes. 'Se vejo um cara mais forte, me sinto menor. E todos os meus amigos têm esse pensamento', afirma. Camargo já treinou lesionado e com dor, graças a uma tendinite no antebraço.
Bombados pela vaidade - continuação SUZANE FRUTUOSO Aos 18 anos, no desespero de 'crescer' cada vez mais a musculatura, o universitário começou a usar anabolizantes - sempre cerca de dois meses antes do verão. 'A intenção era ficar sarado na praia. Em duas semanas já inchava. Eu me matriculava numa academia onde eu estivesse passando férias, para poder treinar todo dia', conta. Parou com os esteróides quando percebeu que tinha músculos, mas nenhuma resistência física. 'Correr por alguns minutos era um sacrifício. Não tinha fôlego e fiquei também com medo de me viciar.' Daniel
Aratangy/ÉPOCA Os exageros e a crença de que suplementos e anabolizantes não são um perigo para a saúde têm criado um efeito preocupante nos consultórios com a onda dos vigoréxicos. O chefe do setor de ortopedia do hospital carioca Barra D'Or, Luiz Simbalista, diz que no verão passado surgiram casos de rapazes com infecção profunda nos músculos. Os exames mostraram que a origem do problema era uma injeção intramuscular, uma das formas de aplicação do esteróide. A substância estava contaminada, o que causou dor e inchaço nos músculos das coxas, dos ombros e dos glúteos, além de necrose. 'O músculo apodrecido é retirado apenas com cirurgia', esclarece o ortopedista. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, Durval Ribas Filho, o anabolizante é um medicamento indicado apenas em casos muito específicos, como na recuperação de pós-operatório, atrofia de massa muscular, anorexia e bulimia - e mesmo assim quando não há resposta a outros tratamentos. 'Infelizmente, esses jovens utilizam o esteróide de maneira equivocada', lamenta. Consumidos de forma errada, mesmo os suplementos não-anabolizantes trazem riscos, como o aumento do ácido úrico no organismo e a formação de cálculo renal, entre outros. Simbalista destaca ainda o aumento nos últimos anos do número de pacientes com lesões por excesso de exercícios. Essa dose descontrolada de malhação causa microfissuras nos músculos, que, inchados, também ficam com a capacidade de esticar limitada e a circulação sanguínea comprometida. Artérias e veias são obstruídas, o que pode provocar o aumento da pressão. 'Esses jovens não estão medindo as conseqüências, que vão aparecer mais tarde, em um corpo considerado perfeito', previne o ortopedista. COMPORTAMENTO A morte da beleza SUZANE FRUTUOSO Livro mostra como os excessos fazem a pessoa perder a própria identidade Nos últimos anos, a psiquiatra Jocelyne Levy Rosenberg observou o aumento da preocupação excessiva com um padrão de beleza, tanto na mídia quanto em seu consultório. Uma das principais manifestações desse fenômeno é a vigorexia. Motivada pelos casos que atendeu, ela passou a pesquisar sobre outros distúrbios relacionados ao corpo. Daí nasceu o livro Lindos de Morrer (Ed. Celebris), lançado no dia 15. A psiquiatra concedeu a seguinte entrevista a ÉPOCA. ÉPOCA
- Cuidar da aparência é saudável. Mas quando a preocupação
estética se torna um perigo? ÉPOCA
- Quais as conseqüências desses excessos? ÉPOCA
- Qual o perfil das vítimas desses problemas? ÉPOCA
- O que a família e os amigos podem fazer para ajudar? Título
COMO AGE
O VIGORÉXICO Artigo enviado por nosso Leitor Robert M. Dougan- New Jersey -EUA |
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